O trabalho voluntário e a transformação das relações de trabalho

O trabalho voluntário e a transformação das relações de trabalho Por Nunes Simões
Segundo a definição das Nações Unidas, “o voluntário é o jovem ou o adulto que, devido o seu interesse pessoal e o seu espírito cívico, dedica parte de seu tempo, sem nenhuma remuneração, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem-estar social, ou outros campos”.
Até poucas décadas atrás, o trabalho voluntário estava predominantemente restrito a algumas ações pessoais, de grupos escolares ou religiosos. Mas essa dinâmica mudou e hoje a maior parte da adesão voluntária vem de empresas privadas. Além do impacto causado nas instituições e dos grupos beneficiados, o mais interessante é observar a forma como esses programas têm alterado o comportamento de executivos dos mais variados segmentos e suas funções dentro das empresas. Sabemos que, atualmente, a competitividade do mercado não se limita apenas ao preço e à qualidade dos produtos e serviços prestados. O empresariado zela por funcionários e clientes, mas também compreende o seu dever em contribuir para a qualidade de vida, a preservação do meio-ambiente e o desenvolvimento comunitário. E, de acordo com essa nova postura, são muitos os conceitos discutidos sobre a responsabilidade social, o investimento social privado e o voluntariado empresarial. Embora haja divergência no modelo defendido e na causa a apoiar, a ação voluntária é amplamente reconhecida como ponto unificador e modificador das estruturas e relações de trabalho.
O desenvolvimento de programas de voluntariado é visto pelos profissionais de RH como uma atividade que contribui para a formação de uma força de trabalho mais preparada para enfrentar com criatividade os impasses diários do mundo corporativo. Na maioria das vezes, para coordenar e executar os projetos sociais nos quais atuam, esses profissionais se deparam com estruturas desprovidas de ferramentas tecnológicas e com equipes bem enxutas. E ao longo do tempo desenvolvem mais suas habilidades de liderança ao trabalhar com voluntários de perfis tão diferentes.
A experiência do trabalho voluntário possibilita a esses executivos a percepção de que a transformação social de uma comunidade é possível por meio de um projeto sólido e estruturado. Em contato com a comunidade, os executivos passam a conhecer verdadeiras histórias de sucesso de ascensão social – jovens e adultos que foram alfabetizados com voluntários, estudantes que passaram por cursos de inclusão digital, aprendizado de inglês, entre muitas outras iniciativas. E este “sentir e viver” faz que os executivos acreditem mais nas causas e nas pessoas.
O grupo de voluntários que acompanha um projeto social surgir e se desenvolver participa dos grandes desafios relacionados à transformação de um ideal em um projeto, a consolidação e a expansão de uma instituição social. Tudo muda quando uma iniciativa que atende a centenas de pessoas passa a atender milhões, e entraves e dificuldades aparecem. Entretanto, no fim, todos os envolvidos se transformam juntos.
De volta aos escritórios, esses profissionais apresentam mais criatividade e confiança na solução de problemas que envolvam muitos departamentos, apresentam habilidades com multitarefas e visão geral dos negócios. A experiência adquirida nas instituições e ONGs auxilia esses executivos a pensarem em soluções mais simples para as divergências do dia a dia e a acreditarem na força do trabalho em equipe e nos resultados que podem surgir da união entre persistência e confiança.
Para a instituição e comunidade beneficiadas, o executivo é capaz de levar as práticas diárias da iniciativa privada, que, muitas vezes, apresentam grande dificuldade para um órgão não governamental, tais como gerenciamento eficiente, conhecimento administrativo e burocrático, visão de negócio e estratégias de marketing para busca de apoios e patrocínios. Com a cultura do voluntariado mais presente na sociedade brasileira, observa-se uma nova filosofia permeando executivos, estudantes e academias – concordamos que todos nós somos responsáveis e temos a nossa parcela de compromisso na construção de um país mais igualitário. O foco saiu da esfera governamental e atualmente todos nós compomos um só país com características únicas de brasilidade e desafios peculiares.
Todas as esferas podem colaborar e a junção desses fatores ganha força muito maior. O governo já conta com um sistema estruturado em redes e unidades, e a iniciativa privada pode compartilhar sistemas otimizados e ferramentas inovadoras, enquanto o cidadão poderá sempre oferecer a sua energia. Esse conceito de unidade se fortaleceu e o grande divisor que existia entre a iniciativa privada e a comunidade diminuiu. Hoje, a comunidade participa da empresa e a empresa faz parte da comunidade.
Nuno Simões é diretor de assuntos corporativos da Intel América Latina. PARA PENSAR
“Antes tarde do que mais tarde”
João Sayad

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