A última valsa

23/7/2015 14:56:57

Prédio abandonado de clube que foi palco de festas dos moradores da Ponte do Imaruim durante anos será demolido e pode se transformar em extensão do posto de saúde

Em abril do ano passado, o jornal Palhocense relembrou os bons tempos da sede social da Sociedade Amigos do Núcleo Residencial (Sanris), na Ponte do Imaruim. O clube está inativo há mais de 10 anos. Virou ponto de encontro de usuários de drogas e moradores de rua. A Defesa Civil do município aconselhou a demolição do prédio e os moradores concordaram com a decisão em assembleia do Conselho Comunitário (CCPI) articulada em conjunto com a presidência do Coral Nova Direção, responsável legal pelo clube.
“Teve a reunião, o pessoal compareceu e está definido, a sede vai ser demolida. Foi decidido pela maioria, 99% votou pela demolição, que deve acontecer ainda este mês”, informa o presidente do coral, Ireno Hillesheim. “Aquilo ali não tinha mais como ficar do jeito que está, está muito perigoso”, lamenta.
O prédio, na esquina das ruas João Batista Pierri e Arlindo Alcebiedes de Andrade, está completamente abandonado e depredado. O laudo da Defesa Civil indica que o imóvel está “em péssimas condições de conservação”, com o “telhado ameaçando total desabamento” e “sinais de invasão por usuários de drogas e entorpecentes”. Diante do quadro, a autarquia “aconselha a total demolição do prédio em benefício da comunidade do entorno”.
A decisão é amparada no artigo 13 do Decreto Federal número 7.257, de 2010, que dispõe sobre o Sistema Nacional de Defesa Civil. E é corroborada pelo Corpo de Bombeiros, que também vistoriou o espaço e em seu laudo, além de informar que o imóvel encontra-se em situação irregular, faz a indicação de que “a estrutura do telhado está precária” – como não têm a competência técnica para sentenciar o risco de colapso da estrutura, os Bombeiros sugeriram a avaliação de um profissional técnico que possa verificar as condições físicas estruturais da edificação. “Já faz mais de 10 anos que aquele espaço está parado e está sendo utilizado por usuário de droga, morador de rua, então o coral convocou esta reunião para definir o que fazer com aquele espaço. Houve a participação da comunidade e todos tiveram vez a voto e a falar também, e todos, quando fizeram essa fala, foram favoráveis à demolição, então, essa foi a deliberação que foi tomada na assembleia”, observa o diretor administrativo do CCPI e secretário de Assistência Social do município, Adriano Mattos.
Agora, os líderes do Coral Nova Direção e do CCPI vão verificar junto à Prefeitura a possibilidade da demolição ser feita pela equipe da Secretaria de Serviços Públicos. O próximo passo seria definir a nova utilização do local. Uma nova assembleia será realizada em agosto, para que a própria comunidade dê o encaminhamento à questão. “Existe uma proposta da Secretaria da Saúde para que o espaço seja destinado ao município para a construção de uma extensão do posto de saúde da Ponte do Imaruim”, comenta Adriano.
A proposta partiu do próprio secretário de Saúde, Rosinei Horácio, que esteve presente na assembleia. “A população da Ponte do Imaruim está com uma quantidade grande de habitantes, deve estar chegando a 25 mil pessoas, e precisamos ampliar a unidade de saúde. Como não temos área na Ponte do Imaruim para estar fazendo construções, nossa proposta é estarmos utilizando aquela área”, argumenta o secretário.
A ideia seria levar para a extensão do posto de saúde atividades como fisioterapia e o centro de controle de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e Aids. “Com isso, desafogamos a unidade e conseguimos ampliar duas ou três equipes de estratégia de saúde da família ali. E com a unidade que vamos começar no Patural, praticamente cobriríamos toda a área de abrangência da Ponte do Imaruim”, expressa.
Rosinei ficou satisfeito com a reação dos moradores com relação à proposta. “A maioria das pessoas que estavam na reunião foi favorável e ficou muito satisfeito com a ideia, não teve nenhum questionamento com relação a isso. Marcaram outra data para estar amadurecendo a ideia, e acredito que é de interesse público e da população, porque a situação ali é complexa, com aquele prédio abandonado, e seria mais um equipamento público que iria atender a toda a população daquela comunidade”, projeta o secretário.

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Foto: Norberto Machado

Fonte: Jornal Palhocense link http://jornais.adjorisc.com.br/jornais/palhocense/on-line/cotidiano/a-ultima-valsa-1.1587368#.Vd-71PZVgSU

Cruzada pela acessibilidade

27/8/2015 15:02:43

Zé do Pedal passa por Palhoça no trajeto de mais de 10 mil quilômetros entre os extremos do país. Uma caminhada pelos direitos das pessoas com dificuldade de locomoção

O ativista social José Geraldo de Souza Castro, o Zé do Pedal, de 57 anos, está atravessando o país em uma cruzada pela acessibilidade. Desde que iniciou a caminhada empurrando uma cadeira de rodas, no Monte Caburaí (RR), na fronteira com a Venezuela, viveu todas as experiências que a natureza pode proporcionar. Recarregou as energias em banho de cachoeira, apreciou a beleza de jardins floridos, provou goiaba colhida diretamente no pé, enfrentou chuvas torrenciais, suportou temperaturas de 40 graus. Aguentou tudo com a certeza de que sua atitude vai ajudar a transformar o Brasil em um quintal seguro para pessoas com problemas de locomoção.
Certeza confirmada pela emoção ao lembrar de um singelo gesto de reconhecimento. Em uma palestra em uma escola durante sua passagem pela Grande Florianópolis, um estudante perguntou: “Posso lhe dar um abraço?”. A lembrança daquele gesto trouxe lágrimas emocionadas. Ali, em frente ao Hospital de Olhos que o Lions Clube ergueu em Palhoça, o ativista compreendeu a dimensão do seu exemplo, o quanto sua cruzada simboliza para as futuras gerações. Talvez tenha sido exatamente por isso que ele enxugou as lágrimas rapidamente e ergueu a cabeça com a mesma determinação de quando partiu das margens do Rio Uailã, em Uiramutã, dia 10 de fevereiro de 2014. Já deu mais de 12 milhões de passos, mas o caminho ainda não terminou, tampouco a luta pelos direitos vai acabar quando chegar ao destino final, o Chuí (RS), completando uma aventura de 10,7 mil quilômetros Brasil adentro. Estima chegar lá no dia 21 de setembro, que desde 1982 simboliza o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência.
A ideia de unir os extremos das fronteiras do país em nome da acessibilidade não partiu de uma necessidade própria. Zé não faz isso por ele; faz pelos outros. A semente foi fertilizada em junho de 2008, durante uma viagem em um kart a pedal de Paris (França) a Joanesburgo (África do Sul), onde assistiria à Copa do Mundo de 2010. Na passagem pela cidade de León, no “Caminho Francês” da rota de peregrinação de Santiago de Compostela, escutou uma voz feminina dizendo: “No puedo (“Não posso”, em espanhol)”. Era uma jovem em uma cadeira de rodas tentando subir uma rampa com um pequeno degrau, de cerca de cinco centímetros. “Para mim, subir aquele passeio era a coisa mais normal do mundo. Mas para aquela moça, era um grande desafio”, lembra.
Foi assim que Zé do Pedal resolveu abraçar a causa das pessoas com problemas de locomoção. Em nome dessa causa, já percorreu 19 estados brasileiros: Roraima, Amazonas, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Goiás, Brasília, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e parte de Santa Catarina, caminhando até 52 quilômetros por dia na constante busca de um mundo mais justo e humano, baseado na trilogia de conceitos que traz estampada na cadeira de rodas: “igualdade, dignidade e respeito”.
O ativista chegou a Palhoça na segunda-feira, dia 24. Pela manhã, visitou o Hospital de Olhos do Lions, erguido recentemente no Pagani. “Tem que parabenizar uma iniciativa dessas de cruzar o país inteiro em nome de uma causa. Nosso país há muitos anos não se preocupava com isso, e é importante essa visão que ele está tendo para poder manifestar junto às autoridades a importância da questão da acessibilidade e da inclusão social. Poucas pessoas teriam essa coragem”, elogia o membro do Lions e secretário de Assistência Social, Adriano Mattos. “O Zé do Pedal mostra uma das característica do Lions, que é servir, e tem várias maneiras de servir. Neste momento ele está servindo mostrando a dificuldade de um cadeirante de transitar numa cidade, e isso não é em Palhoça, é o país todo que tem essa dificuldade”, reflete o presidente da Região A do Lions Distrito LD-9, Milton Muller.
Como a ideia é conscientizar o poder público e a sociedade civil na perspectiva de eliminar barreiras que dificultam à pessoa com deficiência participar ativamente da vida social, teve encontros com representantes do poder público. Foi recebido pelo prefeito Camilo Martins na sala de reuniões da Prefeitura. “Durante a caminhada eu venho apresentando aos municípios onde não existe o conselho, a proposta de Projeto de Lei de criação do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência e sugerindo que o gestor adote no município o que diz a norma 9.050, que é aquela que dá os parâmetros a uma cidade acessível”, explicou o ativista ao prefeito. “Em todas as obras novas do município já cumprimos toda a legislação de acessibilidade. Temos uma campanha junto à CDL e a Acip que são os órgãos representativos da nossa indústria e comércio, para que toda vez que forem fazer uma movimentação de obra em frente aos comércios, que já se preocupem com a acessibilidade. Nossa fiscalização já cumpre isso. Mas aqui em Palhoça temos a cultura açoriana, em que eles fazem o muro em cima da estrada. Temos bairros em que enfrentamos esse problema, fazemos ruas de muro a muro, a calçada não dá pra fazer, porque senão não entra o carro”, explica o prefeito.
À noite, o ativista foi recebido pela Câmara de Vereadores. Em menos de 10 minutos, Zé do Pedal explicou a ideia de sair em defesa de deficientes físicos, idosos, gestantes, mães com carrinho de bebê e todos que enfrentam alguma dificuldade de locomoção, momentânea ou definitiva, severa ou leve, e que sofrem por falta de acessibilidade em quase todos os municípios brasileiros. “Já passei por 20 estados brasileiros, percorri 9.600 quilômetros, já dei mais de 15 milhões de passos e mesmo depois de terminar o trajeto, sempre que existir barreiras darei um passo a mais em defesa da acessibilidade”, afirmou.
Na manhã seguinte, depois do banho de cidadania, seguiu viagem. E aí, novo banho, desta vez de chuva. Situação “normal”, que ele já se acostumou a enfrentar nesta longa travessia tupiniquim. Com uma capa de chuva, caminhou pela BR-101 carregando sua cadeira de rodas emblemática, com a mala sob o assento. “Ali tem tudo o que eu preciso para a caminhada: barraca, saco de dormir, travesseiro. É raro eu dormir em hotel. Na maioria das vezes é em estrada, 70% das noites eu durmo acampado”, conta.
Em uma aventura como essa, o repertório de histórias parece inesgotável. Zé conta que dormiu em malocas, acampou junto com populações indígenas, passou por lugares selvagens (em um trecho da jornada, cerca de 1,5 mil quilômetros entre Manaus e Belém, encontrou apenas seis cidades). No Piauí, quando sentou na cadeira enquanto esperava ser atendido por um prefeito, e depois levantou quando a secretária do político chegou, acharam que era um assassino de aluguel aplicando um golpe para matar o chefe do Executivo. Mas nada o perturba. Ele sabe que o sacrifício de cobrir a distância entre os extremos do País, para os chamados “perfeitos”, é muito menor do que o percurso entre dois quarteirões de muitas cidades, para quem depende de uma cadeira de rodas ou de muletas para se locomover.
Como não tem patrocínio, ele conta com a solidariedade alheia. Nada mais justo do que receber uma retribuição por tamanha dedicação à causa alheia. “Foi meu projeto mais fácil de realizar. É incrível a solidariedade do povo brasileiro”, conclui.

Saiba mais

Quem é Zé do Pedal

Fotógrafo, técnico em turismo, ativista social, ambientalista e ciclista, o mineiro de Guaraciaba e cidadão honorário de Viçosa José Geraldo de Souza Castro realiza, há 30 anos, inusitadas aventuras ao redor do mundo.
A história do Zé do Pedal começou em novembro de 1981, quando decidiu viajar do Brasil à Espanha, em bicicleta, para assistir à Copa do Mundo de futebol de 1982 – não levou muita sorte à Seleção Brasileira, como aconteceria 28 anos depois, na África do Sul.
A bordo do transatlântico que o levou de volta ao Rio de Janeiro, Zé do Pedal foi sonhando com uma volta ao mundo em bicicleta. A partir daí, não parou mais. Daquele longínquo novembro até hoje, visitou 75 países em cinco continentes, percorreu 145 mil quilômetros à “base de pedaladas”, assistiu a três Copas do Mundo, passou por quatro guerras civis, enfrentou chuvas das monções, terremotos e sobreviveu a cinco furacões. Venceu uma maratona, em Lima, Peru.
Visitou ilhas paradisíacas e conheceu os sofrimentos de crianças e adultos em campos de refugiados da guerra do Vietnam. Conheceu a seca, a fome e a miséria na África e no Nordeste brasileiro. Viu sorrisos de crianças brincando às margens do “Velho Chico” e lágrimas nos olhos do barranqueiro ao ver o leito do rio quase seco. Visitou lugares que marcaram a história, como as Torres Gêmeas, as pirâmides do Egito, o Parthenon de Atenas, a Torre Eiffel, o Taj Mahal, a Torre de Pisa, e tantos outros. Enfim, suas viagens foram grandes aulas de geografia, historia e, principalmente, uma aula de vida.

As viagens e os projetos sociais:
De bicicleta até a Copa do Mundo (1981–1982) – Saindo do Rio de Janeiro, atravessou a América do Sul, Central e do Norte, voou até a Inglaterra e foi pedalando pela Europa até a Espanha. Minutos antes da chegada dos jogadores, chegou de bicicleta em frente à concentração da Seleção Brasileira. Chamou a atenção de jornalistas do mundo inteiro e recebeu o apelido de Zé do Pedal.

Volta ao mundo de bicicleta (1983–1986) – Logo que retornou da Espanha, decidiu dar a volta ao mundo de bicicleta. Nesta viagem, divulgou uma campanha de combate ao câncer nos 54 países pelos quais pedalou. O fim da aventura se deu no México, onde novamente assistiu a uma Copa do Mundo.

Japão em um velocípede (1985) – Durante a “Volta ao Mundo”, cruzou o país do sol nascente em um velocípede infantil, enquanto chamava a atenção da mídia para a condição das crianças na Etiópia.

De Chuí a Brasília em um velocípede (1987) – Após conhecer o mundo, Zé decidiu viajar pelo Brasil. Optou, novamente, pelo velocípede, e cruzou o Brasil para chamar a atenção dos parlamentares constituintes para as condições sub-humanas das crianças do Nordeste.

América do Sul em uma motocicleta (1996) – Percorreu Equador, Peru, Chile, Argentina, Uruguai, Brasil, Paraguai e Bolívia. A viagem foi uma comemoração do seu vice-campeonato de motociclismo no Equador.

Pedalando no Velho Chico (2002) – Viajou por todo o Rio São Francisco, em um barco tipo pedalinho, de Três Marias (MG) até o Pontal do Peba (AL). Nesta viagem, procurou chamar a atenção do país para a poluição do Rio São Francisco.

Da Liberdade ao Cristo (2004–2005) – Saindo da Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, tinha o objetivo de chegar ao Rio de Janeiro, percorrendo a costa litorânea das Américas em um barco a pedal. Nesta aventura, buscava alertar a comunidade internacional para a poluição das águas do planeta. Entretanto, na cidade de Dzilam de Bravo, no México, 18 meses depois da partida, sua embarcação sofreu danos irreparáveis ao enfrentar o furacão Rita, impedindo o término da viagem. Dos 23 mil quilômetros programados, pedalou cerca de 10 mil.

Zé do Pedal 50 anos (2007) – Na comemoração de seus 50 anos, construiu uma embarcação a pedal feita com garrafas pet, um quadro de bicicleta encontrado em um lixão e algumas barras de aço. Com ela, realizou uma inusitada travessia da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, para chamar a atenção para a poluição das águas e a importância do Protocolo de Kyoto.

Extreme World (2008–2010) – Em um kart a pedal, viajou da França até a África do Sul. Nesta aventura, de cerca de 17 mil quilômetros, divulgou uma campanha internacional de combate ao Glaucoma e à Catarata em países pobres.

“O objetivo não é criticar nenhum governo, e sim, incutir uma discussão saudável”

“O Brasil vem sendo construído errado há 500 anos, e falamos de acessibilidade há 20, 30 anos”

“Sei que no momento em que faço a minha parte na frente da minha casa sei que estou fazendo meu mundo melhor, e assim vou contribuir para o mundo de todos nós”

“Costumo dizer que nós, enquanto seres humanos, nos preocupamos mais com as máquinas nas ruas do que com as pessoas”

“Não tenho patrocínio, é Deus e o povo no meio do caminho”

Fonte:Jornal Palhocense – Link http://jornais.adjorisc.com.br/jornais/palhocense/on-line/cotidiano/cruzada-pela-acessibilidade-1.1596637#.Vd-6ePZVgSU